segunda-feira, 20 de agosto de 2012

OROÍ & NÊSOÍ


OROÍ
Na mitologia grega, os Oroí ou Oúrea (em grego Oρoί ou Oύρεα, de ούρος ou ορός, “montanha”) eram Prôtógenos (“deuses primordiais”) ou Daímones Nómioi (“espíritos rústicos”) das montanhas. Supunha-se que cada montanha tinha seu próprio deus, ocasionalmente representados nas artes clássicas como velhos barbudos erguendo-se entre seus picos escarpados.
Raramente mencionados nos mitos, eram descendentes de Gaía (a Mãe Terra) por si mesma, portanto irmãos de Ouranós (o Céu) e Póntos (o Mar) e pais com esta das Nýmphes Epigaíes (espíritos femininos da terra).
Entre os Oúrea se consideram:
§                     Aitna, o vulcão da Sikelía.
§                     Athos, uma montanha de Thrákê (norte da Grécia).
§                     Kyllene, uma montanha na Arkadía, onde Hérmês nasceu.
§                     Kyrene, uma montanha na Arkadía, lar das Elaphoi Kyrenitis.
§                     Kynthios, uma montanha de Delos que criou Apóllôn e Ártemis.
§                     Kaúkasos, maciço montanhoso onde fica a prisão de Prometheus.
§                     Kythairon, maciço montanhoso de Boiotía (centro da Grécia).
§                     Dryos, uma montanha da ilha de Naxos.
§                     Erymanthos, uma montanha da Arkadia, lar do Hus Erymanthos.
§                     Erinx, um filho de Aphrodite que foi transformado em montanha.
§                     Pholoe, um monte da Arkadia, morada do Kentauros Pholos.
§                     Helykon, uma montanha da Boiotia que competiu com Kytheron.
§                     Hemos, rainha que foi transformada em montanha por sua Hybris.
§                     Idaios, uma montanha de Krete que criou Zeus.
§                     Lykaios, uma montanha da Arkadia.
§                     Meliteus, uma montanha da Skheria.
§                     Mikale, uma montanha em Karia na Anatolia.
§                     Nomia, uma montanha da Arkadia.
§                     Nysos, uma montanha da Boiotia que criou Dionýsos.
§              Olýmpos, o lar dos Dodekatheon e a montanha mais alta da Grécia, situada na Phrige.
§                     Oreios, deus da montanha Othrys, em Malis (sul da Thessalia).
§                     Ossa, montanha que foi usada pelos Aloadai para subir ao céu.
§                     Parnassos, uma montanha próxima do oráculo de Delphoi.
§                     Parnes, uma montanha da Boiotia.
§                     Pelion, uma montanha onde morava o Kentauros Kheiron.
§                     Pieros, montanha na Makedonia onde vivia Mnemosyne.
§                     Pindos, montanha que foi usada pelos Aloadai para subir ao céu.
§                     Rhodopê, rei que foi transformado em montanha por sua Hýbris.
§                     Sinoe, uma montanha da Arkadia, onde Pán nasceu.
§                     Taurus, montanha sagrada da Grécia.
§                     Tmolos, uma montanha da Lidye (em Anatolia).


NESOÍ
Na mitologia grega, as Nesoí (em grego Νησοί, “ilhas”) eram as deusas das ilhas, e cada ilha teria sua própria personificação. Foram classificadas como antigas deusas elementares chamadas Prôtógenoi.
De acordo com o filosofo Kalimakos as Nesoi eram antigas deusas das montanhas chamadas, Oroí (em grego  Oρoί), filhas de Gaía, por si mesma, mas Poseidón golpeou-as violentamente e mergulhou-as no mar com seu tridente.
Entre algumas dessas deusas se destacam não somente as Ourea, mas também Theai, Nerêídes e Ôkeanídes: Aígina, Erýtheia, Kalypsó, Kírkê, Rhódê, Nésaiê, e Nésô entre tantas outras.

OURANÓS


OURANÓS
Na mitologia grega, Ouranós (em grego, Ουρανός, “céu”) também chamado de Akmôn (Ακμων, “incansável”) ou de Aíôn (Αιων, “eterno”) era um Theós Prôtógonos que personificava o céu. Foi gerado espontaneamente por Gaia, a Terra, e casou-se com sua mãe. Ambos foram ancestrais da maioria dos Theoí Hellenioí, mas nenhum culto dirigido diretamente a Ouranós sobreviveu até a época clássica, e o Theós não aparece entre os temas comuns da cerâmica grega antiga. No entanto, Gaia, Ouranós e Styx podiam ser nomeados em uma solene invocação na épica homérica.
Ouranós teve numerosos filhos-imãos, entre os quais os Titânes e as Titânides, os Kýklopes e os Hekatónkheires. Odiava seus filhos e por isso mantinha todos presos no interior de Gaia, a Terra. Esta então instigou seus filhos a se revoltarem contra o pai. Krónos, o mais jovem, assumiu a liderança da luta contra Ouranós e, usando uma foice oferecida por Gaia, castrou seu pai e jogou seus testículos em Thálassa. Formou-se uma espuma, da qual brotou Aphroditê, a Theá do amor. Do ikhôr de Ouranós que caiu sobre Gaia, nasceram os Kouretes e as Meliades e do ikhôr que caiu sobre Nýx, nasceram as Erinýes, e sobre Hémera, nasceram as Mousai.
Seu equivalente na mitologia romana é Caelus ou Coelus - do qual provém caelum ou coelum, a palavra latina para "céu".
COSMOGONIA
Ouranós foi gerado por Gaia, que o produz “com suas mesmas proporções”. Este ato de produção assexuado foi concebido como uma versão teogônica do princípio cosmogônico da separação do céu e da terra a partir de uma massa indistinta. Ouranós é o consorte de Gaia, esta união é motivo de frequente aparição em mitos e rituais. Ouranós vinha todas as noites cobrir Gaia, deles nascem um conjunto de divindades, os Titânes, os Kýklopes e os Hekatónkheires. Mas Ouranós odiava os filhos que esta gerava.
Os maiores descendentes de Ouranós são os Titânes e as Titânides, seis filhos e seis filhas, os gigantes de cem braços, os Hekatónkheires, e os gigantes com um só olho, os Kýklopes.
Ouranós aprisionou os filhos mais novos de Gaia nas profundezas do Tartaros, nas entranhas da terra, causando grande dor a Gaia. Ela forjou uma foice e pediu aos filhos para castrarem Ouranós. Apenas Krónos, o mais jovem dos Titânes, concordou. Ele emboscou seu pai, castrou-o e lançou os testículos cortados em Thálassa.
Do ikhôr derramado de Ouranós sobre Gaia nasceram os Kouretes e as Meliades, e sobre Nýx as três Erinýes, e sobre Hémera as três Mousai.
A partir dos testículos lançados em Thálassa nasceu Aphroditê. Alguns dizem que a foice ensanguentada foi enterrada na terra e daí nasceu à fabulosa tribo dos Phaiakoi e dos Kýklopes Sikelioi.
Ouranos profetizou que os Titanes teriam um castigo justo por seu crime, antecipando a vitória de Zeus sobre Kronos.
Depois de Ouranos ter sido deposto, Kronos aprisionou novamente os Hekatonkheires e os Kyklopes no Tartaros. Ouranos e Gaia profetizaram que Kronos, por sua vez, estava destinado a ser derrubado por seu próprio filho, e assim o Titan tentou evitar essa fatalidade devorando os seus filhos. Zeus, graças a artimanhas de sua mãe Rheia, conseguiu evitar este destino.
Depois da sua castração, o céu não veio mais para cobrir a terra à noite, cigindo-se ao seu lugar, e "a geração original chegou ao fim". Ouranos era raramente considerado como antropomórfico, exceto as genitais do mito da castração. Ele era simplesmente o céu, o qual foi concebido pelos antigos como um grande teto circular de bronze girando num eixo, sustentado pelo Titan Atlas.
CONSORTES E DESCENDENTES
Quase toda a descendência de Ouranos originou-se de sua união com Gaia, exceto as Mousai, filhas de sua união com Hemera, as Erinyes, filhas de sua união com Nyx e Aphrodite, nascida quando Kronos o castrou e arremessou os genitais mutilados em Thalassa.
v    Filhos de Ouranós com Gaía:
1.   Kýklopes, gigantes de um olho só.
§         Brontês
§         Stéropês
§         Argês
2.   Hekatónkheires, gigantes de cem braços e cinquenta cabeças.
§         Briareôs
§         Kottos
§         Gygês
3.   Titânes e Titânides, deuses anciões.
§         Koîos
§         Kreîos
§         Krónos
§         Okeanós
§         Hyperíôn
§         Iapetós
§         Mnemosynê
§         Phoibê
§         Rheía
§         Tethýs
§         Theía
§         Thêmis
v    Filhas de Ouranós e Nýx
4.   Erinýes, deusas da vingança.
§         Alektó
§         Mégaira
§         Tisíphonê
v    Filhas de Ouranós e Hémera
5.   Moúses, deusas da memória.
§        Mnémê
§        Melétê
§        Aiódê
v    Filhos do ikhôr de Ouranós sobre Gaía
6.   Meliádes, Nýmphai guerreiras nascidas do freixo
7.   Kourétes, místicos Hóplites orgiásticos
8.   Phaíakes, tribo mística da ilha Skhéria.
9.   Kýklopes Sikelioi, tribo de Gigántes da Sikelía.
v    Filha do spérma de Ouranós sobre Thálassa
10.                        Aphrodítê
OURANÓS E VARUNA
A identificação de Ouranos con o Varuna védico provem do nível cultural indo-europeu mais primitivo. A identificação de elementos míticos compartilhados por essas duas divindades era baseada em grande medida nas interpretações lingüísticas, mas não propunha uma origem comum, baseada em parte em uma raíz proto-indo-européia proposta ŭer com o significado “atar” (Varuna ata aos malvados, Ouranos ata aos filhos) é amplamente repelida por aqueles que encontram uma provável etimologia do proto-grego worsanos, da raíz proto-indo-européia wers, “umidecer”, “gotejar” (referido a chuva).
REPRESENTAÇÃO
Como elemento físico, Ouranós era o limite superior do universo, o teto do mundo, sólido, concebido como bronzêo (χάλκεος) ou  como ferrêo (σιδήρεος). A maioria dos especialistas acredita que o céu era concebido como uma abóbada, embora os domos sejam pouco freqüentes depois do período micênico, o céu era pensado como plano e paralelo a terra, posto que si tivesse forma de abóbada não se poderia explicar a necessidade de que Atlas mantivesse separada desta a uma estrutura semelhante. No épico grego é frequente a qualificação de Ouranós como “estrelado” (ἀστερόεντος).
Nos hinos homéricos, Ouranós é às vezes um nome alternativo do Olympous como residência dos Theoi, como ocorre no final do livro I da Iliada, quando Thetis surge do mar para suplicar com Zeus: “saindo dentre as ondas de Pontos, subiu bem cedo ao grande Ouranós e ao Olympous, e encontrou ao longevidente Kronion sentado aparte”.
Olympous (Ὀλυμπους) é usado quase sempre para esse lar, mas Ouranós (Οὐρανός) alude frequentemente ao céu natural acima de nós sem alusão alguma a que os Theoi vivessem ali.
Estes antigos mitos de origens distantes não constam em cultos Hellenos. O papel de Ouranós é o e um deus derrotado de um tempo anterior ao tempo real. Após sua castração, o Céu não voltou a cobrir a Terra pela noite, senão que ocupou seu lugar, e “os pais originais chegaram a seu fim”.
PLANETA OURANOS
Os antigos gregos e romanos sabiam de apenas cinco “estrelas errantes” (em grego πλανήται, “planetas”): Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Na seqüência da descoberta de um sexto planeta no século XVIII, o nome Ouranus foi escolhido como o complemento lógico para a série: para Marte (Ares, em grego) era o filho de Júpiter (Zeus), este, filho de Saturno (Kronos), e este, filho de Coelo (Ouranos).
A perda do épico Titanomakhia atribuído a Eumelos de Korynthos incluía uma Kosmogonia. Provavelmente era similar em muitos aspectos ao de Hesiodos, mas com alguns pontos divergentes e significativos, Ouranos, Gaia e Pontos, por exemplo, eram aparentemente, representados como filhos de Aither e Hemera.
HINO A OURANOS
"Para Ouranós, queimação de incenso. Grande Ouranós, cuja poderosa estrutura não conhece pausa, o pai de todos, desde que surgiu o mundo, ouve, pai generoso, fonte e fim de tudo, para sempre girando em volta desta esfera terrena; morada dos deuses, cujo poder protege e envolve eternamente os limites do mundo, cujo amplo peito, e pregas cercavam as extremidades necessárias para a natureza se manter. Etéreo, terreno, cujos vários moldes, azul e cheio de formas, nenhum poder pode domar. Toda a fonte, vinda de Kronos, para sempre abençoada, divindade sublime, propício a um brilho romântico místico, e coroa os seus desejos com uma vida divina."

PÓNTOS



Nome grego
Nome romano
Tradução
Πόντος
Pontus
Mar
Αἰγαίος
Aegaeus
Egeu

Na mitologia grega, Póntos ou Aígaios (em grego Πόντος, "alto-mar" ou Αίγαιος em latim Pontus ou Aegaeus) era o antigo Prôtógonos Hálios, "deus primordial do mar", filho de Gaía, a Terra, e irmão de Ouranós, o Céu, e os Oúrea, as Montanhas. Gaía gerou Pontós e seus irmãos, por si mesma, sem se unir a nenhum outro Theós.
Foi pai com Gaía dos Hálioi Gerôn, “anciões do mar”, Nereús e Thaúmas, dos aspectos perigosos do mar, Phórkys e sua irmã e esposa Kétos, e da forte Eurybía, além de Kharýbdis. Com Thálassa, contraparte feminina do Mar, foi pai das Haliádes, dos nove Telkhínes, e também de todos os peixes e seres do mar, os Ikhthýes.
Póntos é a primeira divindade que surge como força primordial das águas e é personificado como o mar primitivo. Nas lendas atuais, Póntos é o líder e mestre de todos os rios sinistros que banham o Tártaros. Esta dualidade de Póntos, como o gerador da vida, e o líquido da morte nos traduz que vida e morte têm um ponto comum.
Nos mosaicos romanos ele aparece como uma cabeça gigante saindo do mar adornado com uma barba cinza aguada e como chifres garras de caranguejos.
Póntos e Thálassa foram completamente substituídos Por  Poseidón e Amphítritê nas artes clássicas e mitos. Nos mosaicos romanos os deuses do mar primordial eram geralmente Okeanós e Tethýs.

FILIAÇÃO
Gaía
Coelum & Terra
DESCENDÊNCIA
Nêreús, Kêtó, Phórkys, Thaúmas, Eurýbia (com Gaía)
Khárybdis (com Gaía)
Telkhínes (com Gaía)
Aigaíôn (com Gaía)
Ikhthýes (com Thálassa)
Telkhínes (com Thálassa)
Haliádes (com Thálassa)

"Salve, filhas de Zeús! [Moúses] Dê-me vosso canto que entusiasma! Celébre a raça sagrada dos Imortais que sempre vivem e nasceram de Gaía e de Ouranós o do manto estrelado, e dos filhos da tenebrosa Nýx, Deuses a quem alimentaram as salgadas ondas de Póntos." – Hesíodos, Theogonía 106.


"E primeiro pariu Gaía ao seu igual em grandeza, Ouranós estrelado, com o fim de que a cubrisse por inteiro e fosse uma morada segura para os Deuses bem-aventurados. E depois pariu aos Oúrea enormes, frescos retiros das divinas Nýmphai que habitam as montanhas abundantes em vales pequenos; e depois, o mar estéril que bate furioso, Póntos; mas a estes os gerou sem unir-se a ninguém nas suavidades do amor." – Hesíodos, Theogonía, 126.


"E Póntos gerou Nêreús, verdadeiro e inimigo da mentira, o maior de seus filhos. Era chamado de Ancião, porque é doce e verdadeiro, e por que não se esquece da justiça, e porque suas decisões são equitativas e sábias. E depois, Póntos gerou ao grande Thaúmas, e ao robusto Phórkys, a Kêtó a de formosas bochechas, e a Eurýbia, que tinha em seu peito um coração de aço, após unir-se a Gaía."

"E o imenso Póntos ressoou horrivelmente, e Gaía mugia com força, e o amplo Ouranós gemia estremecido, e o grande Ólympos tremiam sobre sua base ao choque dos Deuses; e no negro Tártaros penetrou um vasto estrépito, ruído sonoro de pés, tumulto da disputa e violência dos golpes." – Hesíodos, Theogonía, 678.

"E então cessou Zeús de conter suas forças, e sua alma ao ponto se encheu de cólera, e implantou todo seu vigor, precipitando-se chamejante de Ouranós e do Ólympos e com o trovão e o relâmpago, voavam rapidamente de sua mão robusta as centelhas, lançando ao longe a chama sagrada e por todas as partes mugia, chamejante, Gaía fecunda e as grandes selvas crepitavam no fogo, e toda a terra ardia, e as ondas de Ôkeanós e o imenso Póntos se abrasavam, e um vapor cálido envolvia aos Titánes terrestres e acendia a chama, prolongando-se no Aithér divino, e nos olhos dos mais bravos estavam deslumbrados pelo resplendor irradiante da centelha e do relâmpago." – Hesíodos, Theogonía, 678.

"Aigaíôn era filho de Gaía e Póntos, tendo ele sua moradia no mar, era um aliado dos Titánes". – Eúmelos de Korínthos ou Arktinos de Miletos, Titanomakhía fragmento 3.

"Os quatro Telkhínes famosos, Aktaios, Megalesios, Ormenos e Lykos, que Bakkhylídes denominou de filhos de Némesis e Tártaros, mas alguns outros, como filhos de Gé e Póntos". – Bakkhylídes, fragmento 52.

Ó divino Aithér (diós aithêr)! Ó sopro alado dos ventos (takhypteroi pnoiai)! Regatos e rios (pêgai potamôn). Ondas inumeráveis, que agitais a superfície dos mares (Póntos)! Ó Gaia, mãe de todos os viventes (panmêtôr gê), e tu, ó Hélios, cujos olhares aquecem a natureza (panoptês kyklos hêlios)! Eu vos invoco!... Vede que sofrimento recebe um deus dos outros deuses!" – Aiskhýlos, Prometheus Desmótês 88. [O Titán Prometheús apela a todos os deuses da natureza para testemunhar o seu tormento:]

"[Ôkeanós aborda o atormentado Titán Prometheús:] As ondas do mar (Póntos) entoam um grito enquanto caem, os lamentos profundos, no abismo negro de Haídês burburinham em resposta, e as correntezas de rios (Potamoí) de fluxo puro lamentam sua dor comovente." – Aiskhýlos, Prometheús Desmótês 431.

"Os filhos de Póntos e Gé foram Phórkos, Thaúmas, Nêreús, Eurýbia e Kêtó". – Pseúdos-Apollódôros, Bibliotheké 1. 10.

"Ele [Orpheús] cantou daquela época passada, quando Gaía, Ouranós e Póntos eram unidos em um único molde, como eles foram separados após uma luta mortal." – Apollónios Rhódios, Argonautiká 1. 498.

"[A partir da descrição de uma pintura grega antiga:] Argó está cortando o seu caminho por meio de um afluente de Póntos [ou seja, o Mar Negro] e Orpheús está seduzindo o mar com seu canto, além disso, Póntos ouve e é acalmado sob o feitiço de sua canção". [N.P. Póntos foi presumivelmente personificado na pintura.] – Philostrátos, o Velho, imagem 2. 15.

"De Aether e Terra [Gaía] [nasceram vários Daímones]... De Caelum [Ouranós] e Terra [Gaia] [nasceu]: Oceanus, Themis, Tartarus, Pontus, e Titanes... De Pontus e Mare [Thálassa] [nasceram]: a tribo dos Piscium [Ikhthýes]... De Pontus e Terra [Gaía] [nasceram]: Thaumas, Tusciuersus, Cepheus" – Pseúdos-Hygínos, Prólogos.



domingo, 19 de agosto de 2012

TÁRTAROS


TÁRTAROS
Nome grego
Nome romano
Tradução
Τάρταρος
Tartarus
Abismo
Na mitologia grega, Tártaros (em grego Τάρταρος e em latim Tartarus) era um lugar de tormento e sofrimento eternos, parecido com o Inferno dos cristãos é o Submundo nas religiões pagãs.
Assim como Gaía era deusa que personificava a Terra e Ouranós o deus que personificava o Céu, Tártaros era um deus que personificava o Inferno. Nele estavam as cavernas e grutas mais profundas e os cantos mais terríveis do reino de Háidês, o mundo dos mortos, para onde todos os inimigos do Olýmpous eram enviados e onde eram castigados por seus crimes. Lá os Titánes foram aprisionados por Zeús, Háidês e Poseidón após a Titanomakhía.
Na Ilíada, de Hómêros, representa-se este mitológico Tártaros como prisão subterrânea “tão abaixo do Háidês quanto a terra é do céu”. Segundo a mitologia, nele eram aprisionados somente os deuses inferiores, Krónos e outros Titánes, enquanto que os seres humanos, eram lançados no submundo, chamado de Inferno.
Na Theogonía de Hesíodos, Tártaros é personificado por um dos deuses primordiais, nascido junto com o Kháos, Gaía e Érôs, que surgiram no universo, no momento da criação. De suas relações com Gaía geraram-se as mais terríveis bestas da mitologia grega, entre elas o poderoso Typhoeús.
Nos mitos órficos, Tártaros era filho de Aithér e Gaía, e pai com esta de Typhôeús e Ekhídna.
O poeta grego Hesíodos garantiu ainda que uma bigorna de bronze cairia do céu durante nove dias até alcançar a terra, e que caíria outros nove dias até atingir o Tártaros. Sendo um lugar tão profundo no chão, estava coberto por três camadas de noites, que se seguiam a um muro feito de bronze a cercar este distante subterrâneo.
Era um poço úmido, frio e desgraçadamente imerso na mais tenebrosa escuridão.
Enquanto, segundo a mitologia grega, o Érebos, reino de Háidês, era o lugar para onde iam os mortos, o Tártaros tinha vários moradores. Quando Krónos era o deus que governava o mundo, prendeu os Kýklôpes e os Hekatónkheires no Tártaros. Zeús os libertou, para que o ajudassem na sua luta contra os Titánes, que acabaram sendo derrotados pelos deuses do Olýmpous, e aprisionados neste desolador tugúrio (Krónos, Ôkeanós, Átlas, Epimetheús, Prometheús e as Titanídes são alguns dos que não foram encerrados). Eram então vigiados por enormes gigantes, cada um com 50 grandes cabeças e 100 fortes braços, chamados Hekatónkheires. Mais tarde, quando Zeús derrotou o monstro Typhôeús, filho de Tártaros com Gaía, também o lançou neste mesmo poço de águas escuras.
O Tártaros também é o local onde o crime encontra seu castigo. Um bom exemplo é o de Sísyphos, ladrão e assassino, condenado a eternamente empurrar uma rocha ladeira acima, apenas para vê-la novamente descer com o próprio peso. Também ali se encontrava Ixíôn, o primeiro homem a derramar o sangue de um parente. Fez com que o seu sogro caísse num fosso cheio de carvões em brasa para assim evitar o pagamento do dote pela esposa. Seu justo castigo foi o de passar toda a eternidade girando uma roda em chamas. Tántalos, que desfrutava da confiança dos deuses, conversando e ceiando com eles, dividiu a comida e os segredos divinos aos seus amigos e em outra versão, querendo testar os deuses lhes ofereceu carne humana como alimento. Sua punição pela perfídia consistia em ser mergulhado até o pescoço em água fria, que desaparecia sempre que tentava bebê-la para aplacar a enorme sede, além de ver frutificando logo acima de sua cabeça deliciosas uvas que, quando tentava colhê-las, subiam para fora de seu alcance.
Para os romanos, o Tartarus é o lugar para onde eram enviados os pecadores. Virgílio o descreve na Eneida. Como um lugar gigantesco, rodeado pelo rio de fogo Phlegéthôn, cercado por tripla muralha que impede a fuga dos pecadores.
Nesta versão, é guardado por uma Hýdra com 50 enormes faces negras, que se postava diante dum portão rangente, e protegida por colunas feitas de Adamanthium, tão duras que nada poderia cortá-las. No seu interior havia um castelo com amplas muralhas e um alto torreão de ferro. Tisíphonê, a Erinýs que representava a Vingança, é a vigia que jamais dorme no alto deste torreão, chicoteando os condenados a ali passar a eternidade.
No interior deste castelo há um poço que desce até as profundezas da terra, no dobro da distância que há entre a terra dos mortais e o Olýmpous. No fundo deste poço estão os Titánes, os Aloádes e muitos outros criminosos.
No próprio Tártaros estão milhares de outros criminosos, recebendo castigos semelhantes aos dos mitos gregos.
Rhadámanthous, Aíakos e Mínôs eram os juízes dos mortos, e decidiam quem deveria ir para o Tártaros.
§                  Rhadámanthys, julgava as almas asiáticas; 
§                  Aiakós, as almas européias;
§                  Mínôs, tinha o voto decisivo, julgava as almas gregas.,

FILIAÇÃO
Sozinho
Aether & Terra
DESCENDÊNCIA
Typhôeús (com Gaía)
Typhôeús, Ékhidna (com Gaía)
Kámpê (com Gaía)
Gigántes (com Gaía)
Telkhínes (com Hekátê)

TÁRTAROS, O GRANDE ABISMO CÓSMICO 

Os mais antigos poetas gregos, Hómêros e Hesíodos, representam Tártaros como o grande abismo cósmico abaixo da terra. Ele está localizado muito abaixo da casa de Haídês, a partir de onde a terra e o céu se encontram."

Antes de todas as coisas existia o Kháos; e depois Gaía a de amplos seios, assento sempre sólido de todos os imortais que habitam os cumes do nevado Ólympos e o Tártaros sombrio escavado nas profundezas da terra espaçosa; e depois Érôs, o mais formoso entre os Deuses imortais, que rompe as forças, e que de todos os Deuses e de todos os homens domina a inteligência e a sabedoria em seus peitos. – Hesíodos, Theogonía, 116.

DESCENDENTES DE TÁRTAROS

"E quando Zeús havia expulsado do céu (Ouranós) aos Titánes, a grande Gaía pariu seu último filho, Typhôeús, após unir-se em amor a Tártaros pela Áurea Aphrodítê." – Hesíodos, Theogonía, 820.

"Os quatro famosos Telkhínes, Aktaios, Megalesios, Ormenos e Lykos, que Bakkhylídes denomina de filhos de Némesis e Tártaros." – Bakkhylídes, Fragmento 52.

 “No princípio só existiam Kháos e Nýx, o negro Érebos e o profundo Tártaros; Gaía, Áêr e Ouranós não haviam nascido, todavia; por fim, Nýx de negras asas pôs no seio infinito do Érebos um ovo sem germe, do qual, após o processo de longos séculos, nasceu o desejoso Érôs com asas de ouro resplandecente, e rápido como o vento tempestuoso. Érôs, unindo-se nos abismos do Tártaros ao Kháos alado e tenebroso, gerou nossa raça, a primeira que nasceu à luz. A dos imortais não existia antes que Érôs misturasse os germes de todas as coisas; mas, ao confundi-los, brotaram de tão sublime união Ouranós, Gaía, Ôkeanós e a raça eterna das divindades bem-aventuradas. É aqui como nós somos muitíssimo mais antigos que os deuses.” – Aristophánes, Órnithes 685.

[Heraklés encontra-se com Aiakós no Tártaros] "Aiakós: Ah, infame, atrevido, Sem vergonha, canalha, mais canalha que todos os canalhas juntos, tu levaste nosso cão Kérberos retorcendo-lhe o pescoço, e escapastes com ele estando eu, encarregado de sua guarda. Mas caistes em meu poder: as negras rochas de Stýx e o penhasco ensanguentado do Akhérôn cerram teus passos; os cãos vagabundos do Kôkytós e a Hýdra de cem cabeças [provavelmente Typhôeús] rasgará tuas entranhas; a Myraina Tartesia [provavelmente Ékhidna] devorará teus pulmões; e as Gorgónes Teithrasiai levarão entre as unhas, envoltas com os intestinos, teus sanguinolentos rins. Ah! corro a chamá-las. – Aristophánes, Bátrakhoi, 475."

"A derrota dos Gigántes pelos Deuses enfureceu Gé ainda mais, então ela teve relações sexuais com Tártaros e gerou Typhôeús na Kilikía." – Pseúdos-Apollódôros, Bibliotheké 1. 39.

"Ela [Ekhídna] era uma filha de Tártaros e Gé." – Pseúdos-Apollódôros, Bibliotheké 2. 4

De Caelum [Ouranós] e Terra [Gaía] [nasceram:] Oceanus, Themis, Tartarus, Pontus; e Titanes: Briareus, Gyes, Steropes, Atlas, Hyperion e Polus [Koíos], Saturnus [Krónos], Ops [Rheía], Moneta [Mnemosýnê], Dione [Aphrodítê]; e as três Phuriae [Erinýes], nomeadas de Alecto, Megaera, Tisiphone." – Hygínos, Prólogos.

"De Terra [Gaía] e Tartarus [nasceram]: Gigantes, Enceladus, Coeus, Elentes, Mophius, Astraeus, Pelorus, Pallas, Emphytus, Rhoecus, Ienios, Agrius, Alemone, Ephialtes, Eurytus, Ephphracordon, Theomises, Theodamas, Otus, Typhon, Polybotes, Meephriarus, Abesus, Colophonus, Iapetus." – Pseúdos-Hygínos, Prólogos.

"Tartarus gerou de Tartara [Gaía], Typhon, uma criatura de imenso tamanho e temerosa forma, que tinha uma centena de cabeças de Draco surgindo de seus ombros. Ele desafiou Jove [Zeús] para ver se Jove lutaria com ele pela soberania. Jove golpeou seu peito com um raio de fogo. Quando estava queimando Jove pôs o Monte Aetna, localizado na Sicelia, sobre ele. Mesmo depois disso, é dito que até hoje ainda queima." – Hygínos, Mýthoi 152. [N.P. Tártara, pode ser possivelmente a própria Gaía ou uma descendente]

TÁRTAROS, A PRISÃO DOS TITÁNES

Ouçam-me todos, Deuses e Deusas, para que manifes­te a vós o que no peito meu coração me dita! Nenhum de vós, seja barão ou fêmea, se atreva a transgredir meu mandato; antes bem, todos concordem, a fim de que quanto antes leve a cabo o que pretendo. O Deus que tentar sepa­rar-se dos demais e socorrer aos troíades ou aos danaioí, como eu o veja, voltará loucamente golpeado ao Ólym­pos; ou, agarrando-o, o lançarei ao tenebroso Tártaros, muito longe, no mais profundo do abismo debaixo da terra, seus portões são de ferro, e o umbral, de bronze, e sua profun­didade desde o Haídês, assim como do céu a terra, e conhecerá em seguida quanto vantajoso é o meu poder ao das demais divindades. E, si queres, fazei esta prova, oh Deuses, para que os convence. Suspenda do céu áurea cadeia, todos juntos, Deuses e Deusas, na mesma, e não será possível arrastar do céu a terra Zeús, árbitro supremo, por mais que se cansem; mas, si eu resolvesse atirá-la, os levantaria com a terra e o mar, ataria um cabo da cadeia no cume do Ólympos, e todo permaneceriam no ar. Tão superior sou aos Deuses e aos homens. – Hómêros, Iliáda, 8.13.

Na próxima manhã verás, si queres, oh Héra venerável, de olhos de novilha, como o prepotente Kroníôn fará grande abalos no exército dos belicosos argeioi. E o impetuoso Héktor não deixará de pelejar até que junto as na­ves se levante o Peleídê, dos pés ligeiros, naquele dia em que combatam próximo das popas e no estreito espaço pelo cadáver de Pátroklos. Assim decretou o fado, e não me importo que se irrites. Mesmo que vá aos confins da terra e do mar, onde moram Iapetós e Krónos, que não desfrutam dos raios de Hélios Hyperiônídês nem dos ventos, e se encontram rodeados pelo profundo Tártaros; embora, errante, chegues até ali, não me importará ver-te enojada, porque não há nada mais insolente que tu. – Hómêros, Iliáda, 8.481.

"E o imenso Póntos ressoou horrivelmente, e Gaía mugia com força, e o amplo Ouranós gemia estremecido, e o grande Ólympos tremiam sobre sua base ao choque dos Deuses; e no negro Tártaros penetrou um vasto estrépito, ruído sonoro de pés, tumulto da disputa e violência dos golpes." – Hesíodos, Theogonía, 678.

"Mas a vitória se inclinou. Até então, abalançando-se uns aos outros, todos haviam combatido bravamente no terrível combate; mas, na primeira linha, até então acentuando uma luta violenta, Kóttos, Briáreôs e Gýgês o insaciável de combate, lançaram trezentas rochas, uma a uma com suas mãos robustas, e cobriram com sombra seus disparos aos deuses Titánes, e nas profundezas de Gaía espaçosa as precipitaram carregados de duras correntes, tendo dominado com suas mãos a estes adversários de grande coração e os lançou abaixo da terra, tão longe da superfície como longe esta Gaía de Ouranós, porque o mesmo espaço há entre Gaía e o negro Tártaros." – Hesíodos, Theogonía, 715.

"Rodando nove noites e nove dias, chegaria a Gaía no décimo dia uma bigorna de bronze caindo de Ouranós; e rodando nove noites e nove dias, chegaria ao negro Tártaros no décimo dia uma bigorna de bronze caindo de Gaía.
Um recinto de bronze o rodeia, e Nýx espalha três muros de sombra em torno da entrada, por cima estão as raízes de Gaía e do estéril Póntos e ali, abaixo da negra névoa, neste lugar infecto, nas extremidades de Gaía imensa, por ordem de Zeús que amontoa as nuvens, estão escondidos os  Deuses Titánes.
E não tem saída este lugar. Poseidón fez suas portas de bronze, e por todas as partes o rodeia de um muro; E ali habitam Gýgês, Kóttos e Briáreôs o de grande coração, seguros guardiães de Zeús tempestuoso e ali, da sombria Gaía e do negro Tártaros, do estéril Póntos e de Ouranós estrelado, estão alinhados os mananciais e os limites, horrendos, infectos e detestados pelos próprios Deuses.
É um enorme abismo, e por todo um ano não chegaria a seu fundo quem transpassasse suas portas, senão que seria levado daqui para ali por uma impetuosa tempestade, atroz e até para os Deuses imortais é horrível esse abismo monstruoso, e além se ergue a morada horrível da negra Nýx, toda coberta de sombrias nuvens.
Na entrada o filho de Iapetós, em pé, sustenta o amplo Ouranós com sua cabeça e com suas mãos infatigáveis, e cheio de vigor. E Nýx e Heméra dão voltas ao redor, chamando uma a outra e transpondo alternativamente o umbral de bronze. E uma entra e a outra sai, e jamais esse lugar encerra de uma vez a ambas, senão que sempre, quando uma esta fora e se move sobre Gaía, a outra volta, aguardando que chegue à hora da partida.
E Heméra traz á luz penetrante aos homens terrestres; e levando em suas mãos a Hýpnos, irmão de Thánatos, vêm por sua vez a perigosa Nýx, envolta em uma nuvem negra, porque ali é onde habitam os filhos da escura Nýx, Hýpnos e Thánatos, Deuses terríveis. E jamais os iluminara com seus raios o brilhante
Hélios, ora escalando Ouranós, ora descendo por ele. Um passeia por Gaía e pelo amplo lombo de Póntos, tranqüilo, doce para os homens; mas o coração do outro é bronze, e sua alma é de bronze em seu peito, e não solta ao primeiro que colhe entre os homens, e é odioso aos próprios imortais.
E no fundo estão as moradas sonoras dos Deuses Subterrâneos (Theoí Khthónioi) do poderoso Haídês e da terrível Persephónê. E guarda as portas um cão feroz, espantoso, e com maus instintos, aos que entram lhes faz agrados com a calda e com as duas orelhas; mas já não os deixa  sair, e cheio de vigilância, devora a quantos querem transpor de novo o umbral do poderoso Haídês e da terrível Persephónê.
E ali habita também a Deusa espantosa para os imortais, a terrível Stýx, filha maior de Ôkeanós o de pronto refluxo. Longe dos Deuses, habita moradas ilustres, cobertas de rochas enormes, e cujo recinto sustenta até Ouranós um círculo de colunas de prata.
Ás vezes, a filha de Thaúmas, Íris a dos pés ligeiros, voa ali como mensageira, sobre o vasto lombo de Póntos, quando entre os Deuses se promove uma acusação ou uma desavença lançando mentiras qualquer habitante da morada olímpica, Zeús envia Íris com o objetivo de que, para o grande juramento dos Deuses colha ao longe num jarro de ouro a famosa água, gelada que cai de uma rocha escarpada e alta.
No seio de Gaía espaçosa, correndo na negra Nýx, a água da Potameís sagrada se converte em um braço de Ôkeanós, e a décima parte dela permanece reservada, as outras nove partes, ao redor de Gaía e do amplo lombo de mar, voltam a cair em Póntos em redemoinhos de planta; mas a décima que flui da rocha é o maior castigo dos Deuses.
Si, ao fazer as liberações, perjura um Deus entre os imortais que evitam o cume do nevado ólympos, jaze sem fôlego durante todo um ano, e não prova mais a ambrosia e o néktar, senão que jaze sem fôlego e mudo em seu leito, e lhe envolve uma horrenda sonolência. E quando cessa seu mal depois de um longo ano, lhe captura outro tormento mais cruel.
Durante nove anos, é afastado para longe dos Deuses eternos, jamais se misturam nos conselhos nem em seus banquetes. E somente no décimo ano toma parte na assembléia dos Deuses que habitam as moradas olímpicas.
E assim foi como os Deuses consagraram ao juramento a água incorruptível de Stýx; essa água antiga que atravessa pelo lugar onde, da terra sombria, e do negro Tártaros, e do estéril Póntos, e de Ouranós estrelado, estão alinhados os mananciais e os limites, horrendos, infectos e detestados pelos próprios Deuses.
E ali estão as esplendidas portas e o umbral de bronze imutável, construídas sobre profundas bases e surgido de si própria. E diante desse umbral, longe de todos os Deuses, habitam os Titánes, mais além de Kháos coberto de névoas; mas Gýgês e Kóttos os ilustres aliados de Zeús que troveja fortemente, tem suas moradas nos mananciais de Okeanos.
Pelo que afeta o vigoroso Briáreôs, Poseidón o que profundamente se estremece lhe tornou seu genro, e lhe deu a sua filha Kymopoleía para que a despose." – Hesíodos, Theogonía, 715.

"E se queimavam toda a terra (Gaía), e todo o céu (Ouranós), e todo o mar (Póntos), e as ondas ferviam a o longe e ao longo das margens, sob o choque dos Deuses, e o choque era irresistível. E se espantou Haídês o que manda nos mortos e se estremeceram os Titánes encerrados em Tártaros, em torno de Krónos, ao ouvir aquele clamor inextinguível e aquele terrível combate." – Hesíodos, Theogonía, 820.

"E reunindo forças, Zeús empunhou suas armas, o trovão, o relâmpago e a centelha abrasadora, e saltando do Ólympos, feriu a Typhôeús. E assim incendiou todas as enormes cabeças do monstro feroz, e o venceu por sob seus golpes, e Typhôeús caiu mutilado, e a grande Gaía gemeu por ele.

E a chama da centelha brotava do corpo deste rei, caindo nas gargantas frondosas de uma áspera montanha, e ardia toda a imensa Gaía em um vapor ardente, e corria como pela terra divina corre, nas mãos de Hephaístos, o estanho fundido pelos ferreiros em um forno de amplas faces, ou como o ferro, que é o mais sólido de todos os metais, na garganta de uma montanha, vencido pelo ardor do fogo. Assim corria Gaía sob o relâmpago de fogo ardente, e Zeús, enfurecido, lançou Typhôeús no amplo Tártaros." – Hesíodos, Theogonía, 855.

"Héra orou, golpeando o terreno plano com suas mãos, e falando assim: Ouça agora, eu oro, Gaía e amplo Ouranós acima, e vós Titánes, deuses que habitam debaixo da terra sobre o grande Tártaros, e de quem surgiram ambos, deuses e homens! Escuta-me agora, uma entre todos, e fazei com que eu possa ter um filho além de Zeús, não menos sagaz do que  ele em força ou, ainda melhor, que ele seja mais forte do que Zeús, como Zeús, que tudo vê, era mais forte do que Krónos. Assim, ela gritou e atacou a terra com suas fortes mãos. Então a vivificante (pheresbios) Gaía se moveu: E quando Héra viu que ela estava com o coração contente, ela acreditou que sua oração seria cumprida." – Hýmnos Homerikós III para Apóllôn Pýthios 300.

"Ele também, aquele inimigo dos Deuses, que reside no tenebroso Tártaros, Typhón de cem cabeças." – Píndaros, Ode Pythía 1. 15.

"As profundezas invisíveis do Tártaros te forçam para abaixo com as correntes de ferro da necessidade." – Píndaros, fragmento 207.

"Stesikhóros denomina ao Tártaros de íngreme, no sentido de profundo." [N.T. O mesmo termo "íngreme" foi usado para descrever a cúpula do céu] – Stesikhóros, fragmento 254.

"Melhor seria que me precipitassem sob a terra, nos abismos impenetráveis do Tártaros, do próprio inferno de Haídês, destinado aos mortos, prendendo-me por indestrutíveis e cruéis cadeias, lá, onde nem os deuses nem os mortais pudessem se alegrar com isso... Mas aqui, exposto ao ar, eu sofro, miserável, suplícios que são motivos de júbilo para meus inimigos!" – Aiskhýlos, Prometheús Desmótês 152.

"Graças a mim, e a meus conselhos, foi-lhe possível precipitar nos negros, e profundos abismos (melanbathês) do Tártaros, o venerando (palaigénês) Krónos e todos os seus defensores. Após tamanho serviço, eis o prêmio ignóbil com que me recompensou o tirano do céu! Tal é a prática freqüente da tirania: a ingratidão para com seus amigos... Mas o que tanto quereis saber: a causa do meu suplício, eu vou dizer agora." – Aiskhýlos, Prometheús Desmótês 221.

"Eu [Prometheús] já sabia tudo, tudo, o que ele acaba de me anunciar!... Que um inimigo sofra todo mal que lhe pode fazer o outro, nada mais natural. Pois que caiam sobre mim os raios fulminantes; que os ventos furiosos inflamem os céus; que a tempestade, agitando a terra em seus fundamentos, abale o mundo; que flagelos sem exemplo confundam as vagas do oceano com as estrelas da abóbada celeste; que Zeús, usando seu invencível poder, precipite meu corpo nos abismos do Tártaros; faça ele o que fizer!... Eu hei-de viver!" – Aiskhýlos, Prometheús Desmótês 1050.

"Ouranós foi o primeiro que governou sobre todo o mundo. Casado com Gáia gerou em primeiro lugar aos chamados Hekatónkheires: Briáreôs, Gýgês e Kóttos, que eram invencíveis em tamanho e força e tinham cem mãos e cinqüenta cabeças. Após estes, Gaía deu à luz aos Kýklôpes: Árgês, Sterópês e Bróntês, cada um deles com um só olho no meio da testa. Mas Ouranós os aprisionou e os lançou ao Tártaros (lugar tenebroso tão escuro quando o Érebos, que se encontra no Haídês tão distante da Terra, como a Terra é do Céu)." – Pseúdos-Apollódôros, Bibliotheké 1. 1 – 3.

"E estando em guerra durante dez anos, Gaía profetizou a Zeús a vitória se conseguisse ter por aliados aos que haviam sido lançados ao Tártaros. Ele, matando a Kámpê, que os vigiava, desatou suas amarras. Então os Kýklopes deram a Zeús o trovão (Bróntês), o relâmpago (Astrapê) e o raio (Keraunós); a Ploútôn, o Elmo (Kynêín), e a Poseidón, o tridente (Tríaina). Armados assim, venceram aos Titánes e encerrando-os no Tártaros, puseram como guardiões aos Hekatónkheires." – Pseúdos-Apollódôros, Bibliotheké 1. 6 – 7. 

"Mas Zeús, temendo que os homens recebessem a arte de curar daquele [Asklepiós] e que auxiliassem assim, uns aos outros, o fulminou. Apóllôn se indignou por isto e matou aos Kýklopes que fabricavam o raio de Zeús. Então Zeús estava a ponto de lançá-lo ao Tártaros, mas graças as súplicas de Lêtó, lhe ordenou a servir durante um ano a um homem. Assim Apóllôn foi a Phéras, perante Admetos, filho de Phérês, e o serviu como pastor e fez com que todas as vacas parissem gêmeos." – Pseúdos-Apollódôros, Bibliotheké 3. 122.

"E tu, irmão, mais amado por minha alma do que ninguém, baluarte do lar e da pátria inteira, não será em vão que tingiras o altar com taurino sangue quando ao monarca do trono de Ophíôn ofereças as primícias de vítimas sem fim; porque a sua planície natal há de levar [o Ólympos], aquela que excelsamente os gregos cantavam, onde sua mãe, experiente em lutas, pois ao Tártaros,  a rainha anterior [Eurynómê] lançou, com dores de parto secreto lhe seu à luz [a Zeús], refulgindo aos ímpios festejos no qual seu esposo, de sua própria linhagem, devorava; mas não saciou seu ventre com ele, senão com uma pedra, vestido com panos como aqueles usados pelos bebês, o cruel Kéntauros tragou, sepulcro dos seus [irmãos de Zeús]." – Lykophrón, Alexándra 1191. [N.P. Ophíôn e Eurynómê reinaram no Ólympos até serem destronados por Krónos e Rheía]

"Junto a imagem de Despoinê está Anýtos, a figura de um homem armado. Dizem aqueles que vivem nos arredores do santuário que Despoinê foi criada por Anýtos, que é um dos chamados, Titánes. O primeiro que introduziu na poesia aos Titánes foi Hómêros, que dizia que eram deuses que viviam no chamado Tártaros, e o s versos estão num juramento de Héra. Onomakritos tomou de Hómêros o nome dos Titánes e compôs uma festa de mystéria para Dionýsos e fez ds Titánes, os causadores dos sofrimentos de Dionýsos." – Pausanías, Descrição da Grécia 8. 37. 5.

"Abaixo da terra, até mesmo abaixo do abismo do Tártaros, ele deve ir para a sua própria destruição e então enterrar-se a inúmeras braças de profundidade." – Athenaíos, Deipnosophistai 3. 101. 

"Para os Titánes. "Oh, poderosos Titánes... que nas profundezas do Tártaros habitam, profundamente fundido abaixo da terra firme... Evite seu furor, caso desde os assentos infernais um de sua tribo deseje visitar nossos retiros." – Hýmnos Orphikós 37

"Arké era filha de Thaumas e sua irmã era Íris (o arco-íris); ambas tinham asas, mas, durante a guerra dos Theoí contra os Titánes, Arké voou desde o acampamento dos Theoí e se juntou aos Titánes. Após sua vitória Zeús removeu suas asas antes de lança-la ao Tártaros." [N.P. Arke era uma deusa arco-íris como sua irmã Íris.] – Ptolemeus de Hephaestion, Nova História Livro 6.

"[Éris furiosa por não ter sido convidada para o casamento de Peleús & Thétis:] Quisera ela destrancar os ferrolhos das tenebrosas cavidades e despertar os Titánes do abismo inferior e destruir o céu, a sede de Zeús, que governa no alto." – Colluthus, Rapto de Helénê 48.

"Krónos de longas barbas caiu sob o relâmpago, e Zeús selou ele nas profundezas do sombrio Tártaros, armado em vão com suas aquosas armas da tempestade. – Nónnos, Dionysiaká 24. 230. [N.P. o abismo do Tártaros era a orifem do renome do furacões.]"

"O próprio Krónos, que se banqueteou com seus próprios filhos num astuto canibalismo, foi encoberto pelos seios de Gaía [aprisionando no Tártaros], embora fosse filho de Ouranós." – Nónnos, Dionysiaká 27. 50.  

TÁRTAROS, PRISÃO DOS CONDENADOS

Os filósofos gregos e poetas posteriores igualaram Tártaros com Haídês e descreveram-no como a prisão dos condenados, em contraste com os campos Elýsios, reino do abençoado.

XXIX — Sókrates — Então ouve, como se diz, uma bela história, que decerto tomarás como fábula, segundo penso, mas que eu digo ser verdadeira, pois insisto em que é a pura verdade tudo o que nela se contém. Conforme Hómêros nos relata, Zeús, Poseidón e Ploútôn dividiram entre si o poder que tinham recebido do pai. Ora, no tempo de Krónos havia uma lei relativa aos homens, que sempre vigorou e que ainda se conserva entre os deuses, a saber: que o homem que houvesse passado a vida com justiça e santidade, depois de morto iria para a Ilha dos Bem-aventurados (Nésoi Mákarôn), onde permaneceria livre do mal, em completa felicidade, e que, pelo contrário, quem tivesse vivido impiamente e sem justiça, iria para o cárcere da punição e da pena, a que dão o nome de Tártaros. No tempo de Krónos, e mesmo depois, no começo do reinado de Zeús, os juizes eram vivos e julgavam aos vivos no próprio dia em que deveriam morrer. Esse o motivo de ser o julgamento cheio de falhas; por isso, Ploútôn e os zeladores da Ilha dos Bem-aventurados foram a Zeús e lhe comunicaram que para ambos os lugares chegavam homens de todo em todo indignos. Então Zeús lhes falou: Vou remediar tal inconveniente. As sentenças, realmente, têm sido mal dadas, porque as pessoas são julgadas com vestes, uma vez que ainda estão vivas. Desse modo, continuou, muitos homens de alma ruim são adornados de belos corpos, posição e riqueza, aparecendo por ocasião do julgamento infinitas testemunhas que afirmam terem eles vivido com justiça. Nessas circunstâncias os juízes ficam perturbados, tanto mais que eles também julgam vestidos, servindo-lhes de véu para a alma os olhos, os ouvidos e todo o corpo. Tudo isso atua como empecilho, tanto as suas próprias vestimentas como as dos que vão ser julgados. Em primeiro lugar, disse ele, será preciso tirar dos homens o conhecimento da morte, pois presentemente eles têm notícia dela com antecedência; nesse sentido, já foram dadas instruções a Prometheús. Em segundo lugar, passarão a ser julgados desprovidos de tudo, a saber, só depois de mortos. O juiz, também terá de estar morto e nu, para examinar apenas com sua alma as demais almas, logo após a morte de cada um, que estará desassistido de toda a parentela e depois de haver deixado na terra todos aqueles adornos, para que o julgamento possa ser justo. Percebi esses inconvenientes antes de vós, e como juízes nomeei três de meus filhos, sendo dois da Ásia: Mínôs e Rhadámanthys, e um da Europa: Aiakós. Depois de morrerem, julgarão no prado que se acha na altura da encruzilhada dos dois caminhos: o que vai dar na Ilha dos Bemaventurados e o que vai para o Tártaros. Rhadámanthys julgará os que vierem da Ásia; Aiakós, os da Europa. A Mínôs darei o privilégio de pronunciar-se por último, nos casos de indecisão dos outros dois, para que seja o mais justo possível o julgamento que decide da viagem dos homens.
LXXX — Eis, Kalliklés, o que ouvi contar e creio ser verdade. Dessa história eu tiro a seguinte conclusão: a morte, conforme penso, nada mais é do que a separação de duas coisas: a alma e o corpo. Uma vez separados um do outro, nem por isso deixa nenhum deles de apresentar a mesma constituição do tempo em que ainda vivia o homem. O corpo conserva sua natureza e os sinais de quanto pudesse ter feito, bem como os tratamentos a que foi submetido, tudo facilmente reconhecível. Se um indivíduo foi em vida corpulento, ou por natureza ou por sua maneira de viver, ou por ambas as causas, depois de morto será também grande o seu cadáver; se era gordo, o cadáver será gordo, e assim com tudo o mais. Se gostava de deixar crescer os cabelos, o cadáver também apresentará cabelos soltos. Por outro lado, se apresenta va no corpo cicatrizes de azorrague, ou marcas de sevícias, ou de ferimentos outros, recebidos em vida, será possível perceber tudo isso no cadáver. E se, porventura, tivesse em vida algum membro fraturado ou defeituoso, isso mesmo se poderá reconhecer depois de morto. Numa palavra: tudo por que em vida o corpo passou continua por algum tempo visível, em sua quase totalidade, depois da morte. A mesma coisa, Kalliklés, penso que se passa com relação à alma; tudo nela se torna visível, depois de despida do corpo, tanto suas caracte rísticas, naturais como as modificações supervenientes, no empenho do homem de alcançar isto ou aquilo. Ao se apresentarem diante do juiz — os da Ásia vão para Rhadámanthys — coloca-os em sua frente Rhadámanthys e examina alma por alma, sem saber a quem pertenceram, a não ser, por vezes, quando acontece tomar a do Grande Rei ou a de qualquer outro soberano ou potentado, e verificar não haver nela nada são, por estar cheia de lanhos e de marcas de perjuros e de injustiças, que as diferentes ações foram deixando na alma, e de encontrar tudo retorcido pela mentira e pela vaidade, sem estar nada direito, visto ter sido criada sem a verdade; e como conseqüência da licença, da luxúria, da insolência e da incontinência de conduta, mostra-se a alma cheia de deformidades e de feiura. Contemplando-a desse jeito, envia -a Rhadámanthys ignominiosamente para a prisão, onde terá de sofrer o castigo merecido.
LXXXI — A pena merecida para quem recebe castigo, quando é punido com justiça; é tornar-se melhor e tirar algum proveito com o castigo, ou servir de exemplo para outros, a fim de que estes, vendo-os sofrer o que sofrem, se atemorizem e se tornem melhores. Os que aproveitam com o seu próprio castigo, seja ele imposto pelos deuses, seja pelos homens, são os que come tem faltas remediáveis. Todavia, esse proveito só é alcançado por meio de dores e sofrimento, tanto aqui na terra como no Haídês; não há outro modo de limpar-se da injustiça. Os culpados dos piores crimes, que, por isso mesmo, são incuráveis, são os que ficam para exemplo, sem que eles próprios tirem a menor vantagem disso, visto não serem passíveis de cura. Para os outros, porém, é proveitoso vê-los expiar eternamente os próprios erros por meio dos maiores, mais dolorosos e mais terríveis suplícios, expostos para exemplo na prisão do Haídês, espetáculo e advertência, a um tempo, para quantos criminosos ali chegarem. Arkhelaós será um desses, é o que eu digo, se for verdade o que Póllos nos contou, e bem assim todos os tiranos iguais a ele. Estou convencido de que a maioria de tais exemplos é tirada da classe dos tiranos, dos reis, dos potentados e dos demais administradores dos bens públicos, por serem, justamente, os que têm a possibilidade de cometer os maiores e mais ímpios crimes. Hómêros é testemunha disso, pois nos mostra reis e potentados a sofrer castigos eternamente no Haídês: Tántalos, Sísyphos e Titýos. Thersítês, ou qualquer outro vilão de maus costumes, ninguém nos apresenta como sujeito a penas eternas, por incurável. É que, no meu modo de pensar, carecia de poder para isso, motivo por que era mais feliz do que os que dispuseram desse poder. De fato, Kalliklés, é entre os tiranos que se encontram os tipos mais perversos; porém nada impede que entre eles também se nos deparem homens virtuosos, dignos em todo o ponto de nossa admiração. Pois é sumamente difícil, Kalliklés, e grandemente merecedor de elogios, levar vida de justo quem tem o poder de fazer o mal. Porém são poucos os homens nessas condições. Todavia, tanto aqui como alhures, tem havido, e no futuro, quero crer, não faltarão homens excelentes na virtude de administrar honestamente o que lhes confiarem. Um, até, já se tornou famoso em toda a Héllade, Aristeídes, filho de Lysímakhos. Porém a maioria dos potentados, caro amigo, é gente criminosa.
LXXXII — Como disse, quando aquele Rhadámanthys recebe um tipo desses, ignora tudo a seu respeito, quem seja ou de que família provém; sabe apenas que é um celerado. Vendo isso, envia-o para o Tártaros, não sem o ter previamente assinalado, para indicar se é ou não passível de cura. Uma vez lá chegado, o criminoso recebe o castigo merecido. Mas, quando acontece perceber uma alma que viveu santamente e na verdade, de um s imples particular ou de quem quer que seja, mas principalmente, Kalliklés, segundo penso, de algum filósofo que durante a vida só se ocupou com seus interesses, sem ingerir-se nos negócios dos outros, mostra-se satisfeito e o encaminha para a Ilha dos Bem-aventurados. O mesmo faz Aiakós. Ambos julgam com um bastão na mão. Mínôs se conserva à parte, sentado, e é o único que empunha um cetro de ouro, como em Hómêros no-lo declara Odysseús, que o viu com cetro de ouro na mão, assentado, e entre os mortos a distribuir justiça. Eu, Kalliklés, de minha parte, dou crédito a essa narrativa e me esforço para apresentar-me diante do juiz com a alma tão limpa quanto possível. Não dou nenhuma importância às honrarias que a maioria dos homens tanto preza; empenhando-me na busca da verdade, procurei tornar-me o melhor possível enquanto viver, e assim também morrer, quando chegar a minha hora. Exorto também os demais homens, na medida das minhas forças, a fazerem o mesmo, como te exorto, em retribuição aos teus conselhos, a adotar esse modo de vida e a tomar parte nessa luta, a mais importante, sem nenhuma dúvida, que se trava aqui na terra, e te lastimo por saber-te incapaz de defender-te quando te vires diante daquele julgamento e da sentença a que há pouco me referi. Quando chegares à frente do teu juiz, filho de Aígina, e ele puser a mão em ti e levar-te para o julgamento, ficarás de boca aberta e com vertigens, tal como eu aqui, sendo possível mesmo que alguém te esbofeteie ignominiosamente e te inflija toda a sorte de ultrajes.
LXXXIII — É possível que consideres tudo isso uma simples história de velhas, que só merece o teu desprezo. Não fora nada extraordinário que nós também a desprezássemos, se em nossas investigações encontrás semos algo melhor e mais verdadeiro. Mas, como viste, vós três, os mais sábios helenos do nosso tempo, tu, Póllos e Górgias, não fostes capazes de demonstrar que devemos viver uma vida diferente desta, que se nos revelou vantajosa até mesmo no outro mundo. Entre tantos argumentos desenvolvidos, to dos foram refutados, tendo sido este o único que se manteve firme, a saber, que devemos com mais empenho precaver-nos de cometer injustiça do que de ser vítima de injustiça, e que cada um de nós deve esforçar-se, acima de tudo, não para parecer que é bom, mas para sê-lo realmente, tanto na vida particular como na pública. Se alguém se tornar mau sob qualquer aspecto, deverá ser castigado, sendo esse o segundo bem depois do de ser justo, que é tornar se justo por meio do castigo e da expiação da culpa; que toda adulação deve ser evitada, tanto com relação a si próprio como a estranhos, quer sejam poucos, quer muitos, e que tanto a faculdade de bem falar como os demais recursos desse gênero só devem ser empregados a serviço da justiça. Aceita, portanto, meu conselho, e acompanha-me para onde, uma vez chegado, serás feliz, assim na vida como na morte, conforme nosso argumento o certifica. Deixa que te desprezem como insensato, que te insulte quem quiser insultar, sim, por Zeús, recebe sem perturbar-te até mesmo aquele tapa ignominioso; não virás a sofrer mal nenhum, se fores um homem verdadeiramente bom e se praticares a virtude. E depois de a termos praticado em comum, se julgarmos conveniente, dedicar-nos-emos à política ou ao que melhor nos parecer, o que decidiremos oportunamente, quando para isso ficarmos mais aptos do que estamos agora. Pois é vergonhoso, sendo nós o que mostramos ser neste momento, blasonar como se valêssemos alguma coisa, quando nem sequer pensamos do mesmo modo sobre qualquer assunto, principalmente os de mais importância, tão grande é nossa ignorância! Tomemos como guia a verdade que acaba de nos ser revelada e que nos indica ser a melhor maneira de viver a que consiste na prática da justiça e das demais virtudes, na vida como na morte. Aceitemos essa norma de vida e exortemos os outros a fazer o mesmo, não aquela em que confias e que me aconselhaste a seguir. Porque essa, Kalliklés, é carecente de valor. – Plátôn, Górgias 523. 


Sokrátês: Porém devemos senhores, considerar também o seguinte: se a alma for imortal, exigirá cuidados de nossa parte não apenas nesta porção do tempo que denominamos vida, senão o tempo todo em universal, parecendo que se expõe a um grande perigo quem não atender esse aspecto da questão. Pois se a morte fosse o fim de tudo, que imensa vantagem não seria para os desonestos, com a morte livrarem-se do corpo e da ruindade muito própria juntamente com a alma? Agora, porém, que se nos revelou imortal, não resta à alma outra possibilidade, se não for tornar-se, quanto possível, melhor e mais sensata. Ao chegar ao Haídês, nada mais leva consigo a não ser a instrução e a educação, justamente, ao que se diz, o que mais favorece ou prejudica o morto desde o início de sua viagem para lá. O que contam é o seguinte: ou morrer alguém, o espírito (Daímôn) que em vida lhe tocou por sorte se encarrega de levá-lo a um lugar em que se reúnem os mortos para serem julgados e de onde são conduzidos para o Haídês com guias incumbidos de indicar-lhes o caminho. Depois de terem o destino merecido e de lá permanecerem o tempo indispensável, outro guia os traz de volta, após numerosos e longos períodos de tempo. Esse caminho não é o que diz Télephos, de Aiskhýlos, ao afirmar que o caminho do Haídês é simples; a meu ver nem é simples nem único. Se fosse o caso, seria dispensável guia, pois ninguém se perde onde a estrada é uma só. O que parece é que ele é cheio de voltas e bifurcações. Digo isso com base nos ritos sagrados e cerimônias aqui em uso. De qualquer forma, a alma prudente e moderada acompanha seu guia, perfeitamente consciente do que se passa com ela; mas, como disse há pouco, a que se agarra avidamente ao corpo esvoaça durante muito tempo em torno dele e do mundo visível, e depois de grande relutância e de sofrimentos sem conta, é por fim arrastada dali, à força e com dificuldade pelo espírito (Daímôn) incumbido de conduzi-la. Uma vez alcançado o lugar em que se encontram, outras almas, a que se acha impura pela prática do mal, de homicídios injustos ou de crimes semelhantes, irmãos daqueles e iguais aos que soem praticar almas irmãs, de umas alma como essa todas se afastam, evitam-na, não havendo guia nem companheiro de jornada que com ela se associe. Tomada de grande perplexidade, vagueia por todos os lugares até escoar-se certo tempo, depois do que a arrasta a Necessidade para a moradia que lhe foi determinada. A que atravessou a vida com pureza e moderação e alcançou deuses por guias e companheiros de jornada, obtém moradia apropriada. – Plátôn, Phaídôn, 107.


LX – Assim é a natureza da terra em seu conjunto e das coisas que a circundam. Nas entranhas da terra, por todo o seu contorno notam-se numerosas concavidades, algumas mais profundas e patentes do que esta em que moramos, outras também profundas, porém com entrada mais angusta do que a nossa, havendo, ainda, umas tantas de menor fundura, porém mais largas do que esta. Todas essas regiões se comunicam entre si em muitos lugares por passagens subterrâneas, de largura variável, além de possuírem outras vias de acesso. Muita água corre de uma para outra, como nos grandes vasos, havendo, outro assim, embaixo da terra rios perenes de grandeza descomunal, de água quente e fria, e também muito fogo e grandes rios de fogo, bem como correntes de lama líquida, ora mais limpa, ora mais suja, tal como antes de lava os rios de lama da Sikelía, e depois a própria lava. Essas diferentes regiões se enchem de semelhante matéria, de acordo com a direção ocasional da corrente. Essas águas se movimentam para cima e para baixo, como um pêndulo colocado no interior da terra. Semelhante oscilação deve provir do seguinte: Entre as aberturas da terra, uma há particularmente grande, que a atravessa em toda a sua extensão e a que se refere Hómêros nos seguintes termos: Essa voragem profunda que em baixo da terra se encontra, e que por ele mesmo e muitos outros poetas é denominada Tártaros. É para essa abertura que confluem todos os rios, como é dela, também, que todos partem, adquirindo cada um as propriedades do terreno por onde passam. A razão de saírem de todos os rios dessa abertura e de voltarem para ela, é carecerem suas águas de fundo e de base; daí oscilarem e flutuarem para cima e para baixo. Concorrem para o mesmo efeito o ar e o vento que as envolvem, por acompanhá-las tanto quando se precipitam para as regiões do outro lado da terra como quando se dirigem para o lado de cá. E assim como o sopro de quem respira se encontra em constante movimento, na inspiração e na expiração, do mesmo modo o sopro predominante naquelas regiões, juntamente com as águas, quando entram e quando saem, produz ventos de irresistível violência. Ao se dirigirem as águas para os lugares que denominamos de baixo, afluem para os leitos das correntes desse lado e os enchem, como nos sistemas de irrigação; quando, inversamente, os abandonam e retornam para cá, voltam a encher os deste lado. Uma vez cheios, correm pelos canais e pela terra, seguindo as vias naturais do solo e passam a formar lagos, mares, rios e fontes. De lá, voltando a mergulhar na terra, depois de uma parte das águas circular por maios número de regiões e mais extensas, enquanto outras fazem trajeto pequeno em menos lugares, lançam-se outra vez no Tártaros, algumas muito mais abaixo do nível em que corriam, outras um pouco menos, conquanto desemboquem todas muito abaixo do ponto de partida. Alguns rios irrompem do lado oposto da saída, outros do mesmo lado; sim, casos há de descreverem um círculo completo: enrolando-se uma ou mais vezes em torno da terra, à feição de serpentes, descem o mais possível para de novo se lançarem no Tártaros. Os rios de ambos os lados podem baixar até o centro, porém não ultrapassá-lo, pois de cada lado a margem desses rios é de aclive acentuado.
LXI – Há muitas outras caudais do mais variado aspecto, porém nessa multidão de rios há quatro, particularmente, dos quais o maior e mais afastado do centro, denominado Ôkeanós, circunda Gaía por inteiro. De fronte deste e em sentido contrário deflui o Akhérôn, que além de atravessar muitas regiões desertas, corre por baixo da terra, até alcançar a Lagoa Akherousía, para onde vão as almas da maioria dos mortos, as quais, depois de ali permanecerem o tempo marcado pelo destino, umas mais outras menos, são reenviadas para renascerem em animais. O terceiro rio irrompe dentre os dois primeiros, para lançar-se, perto de sua origem, num lugar amplo e cheio de fogo, onde forma um lago maior do que o nosso mar, de água e lama ferventes. Daí, torvo de tanta lama, descreve um círculo e depois de contornar a terra e atravessar outros lugares, atinge o limite extremo da Lagoa Akherousía, sem que suas águas se misturem com as desta. Por fim, depois de muitas voltas sempre dentro da terra lança-se na porção mais baixa do Tártaros. Esse é que tem o nome de Pyriphlégetôn, cujas lavas jogam partículas incandescentes em diversos pontos da superfície da terra. Defronte dele, por sua vez, desemboca o quarto rio, a princípio numa região selvática e pavorosa, e, ao que se diz, toda ela de colorido azul escuro, denominada Stýx, sendo chamada Stýx a lagoa em que ele vem lançar-se. Depois de nela cair e adquirirem suas águas propriedades terríveis, afunda pela terra, traçando voltas sem conta em sentido contrário às do Pyriphlégetôn, com o qual vai defrontar-se no lado oposto da lagoa Akherousía. Suas águas, também, não se misturam com as outras, vindo ele a desaguar no Tártaros defronte do Pyriphlégetôn. O nome desse rio, no dizer dos poetas, é Kôkytós.
LXII – Sendo essa a disposição natural dos rios, quando os mortos chegam ao local determinado para cada um o seu espírito particular (Daímôn), antes de mais nada são julgados, tanto os que levaram vida bela e santa como os que viveram mal. Os classificados como de procedimento mediano, dirigem-se para o Akhérôn e sobem para as barcas que lhes são destinadas e que os transportam para a lagoa. Aí passam a residir e se purificam, e no caso de haverem cometido alguma falta, cumprem a pena imposta e são absolvidos ou recompensados, de acordo com o mérito de cada um. Os reconhecidamente incuráveis, por causa da enormidade de seus crimes, roubos de templos, repetidos e graves, homicídios iníquos e contra a lei, e muitos outros do mesmo tipo que se cometem por aí: esses lança-os no Tártaros a sorte merecida, de onde não sairão nunca mais. Os autores de faltas sanáveis, embora graves – seria o caso dos que, num momento de cólera, usaram de violência contra o pai ou a mãe, mas que se arrependeram o resto da vida, ou os que se tornaram homicidas por idênticos motivos – todos terão fatalmente de ser lançados o Tártaros. Porém um ano depois de ali caírem, as ondas jogam os assassinos para o Kôkytós, e os culpados de violência contra o pai e a mãe para o Pyriphlégetôn. Arrastados, assim, pela correnteza, quando atingem a Lagoa Akherousía, alguns chamam a vozes os que eles mesmos mataram, outros as vítimas de suas violências; e ao acorrerem todos a seus brados, imploram permissão de passar para a lagoa e de serem recebidos. Se conseguem com eles que os atendam, ingressam na lagoa, terminando logo ali seus sofrimentos; caso contrário, são mais uma vez levados para o Tártaros e deste, novamente, para os rios, prolongando-se, dessa forma, o castigo até conseguirem o perdão de suas vítimas. Essa pena lhes é imposta pelos juízes. Por último, os que são reconhecidos como de vida eminentemente santa, ficam dispensados de permanecer nessas moradas subterrâneas e, como egressos da prisão atingem, as regiões puras e passam a residir na terra. Entre esses, os que já se purificaram suficientemente por meio da filosofia, vivem daí por diante sem corpo e vão para moradias ainda mais belas do que as outras. Desisto de descrevê-las, à uma, por não ser fácil tarefa, à outras, por não dispor agora de tempo para tanto. Do que vos expusemos, Simmías, precisamos tudo fazer para em vida adquirir virtude e sabedoria, pois bela é a recompensa e infinitamente grande a esperança.
LXIII – Afirmar, de modo positivo, que tudo seja como acabei de expor, não é próprio de homem sensato; mas que deve ser assim mesmo ou quase assim no que diz respeito a nossas almas e suas moradas, sendo a alma imortal como se nos revelou, é proposição que me parece digna de fé e muito própria para recompensar-nos do risco em que incorremos por aceitá-la como tal. É um belo risco, eis o que precisamos dizer a nós mesmos à guisa da formula de encantamento. Essa é a razão de me ter alongado neste mito. Confiado nele; é que pode tranqüilizar-se com relação a sua alma o homem que passou a vida sem dar o menor apreço aos prazeres do corpo e aos cuidados especiais que este requer, por considerá-los estranhos a si mesmo e capazes de produzir, justamente, o efeito oposto. Todo entregue aos deleites da instrução, com os quais adornava a alma, não como se o fizesse com algo estranho a ela, porém como jóias da mais feliz indicação: temperança, justiça, coragem, nobreza e verdade, espera o momento de partir para o Haídês quando o destino o convocar. Vós também, Simmías e Kébên, acrescentou, e todos os outros, tereis de fazer mais tarde essa viagem, cada um no seu tempo. A mim, porém, para falar como herói trágico, agora mesmo chama-me o destino. Mas esta quase na hora de tomar o banho. Acho melhor fazer isso antes de beber o veneno, para não dar às mulheres o trabalho de lavar o cadáver. – Plátôn, Phaídôn 110 – 113. 


"Na biga a parda Nox (Nýx) o pólo ocupa: Eis do céu, deslizando a sombra anquísea, tais vozes, difundir-se lhe afigura: ‘Filho, que em vida mais amei que a vida, filho, a quem de Ilium, molesta o fado. A ti me expede Ioue (Zeús), que do Olympus doeu-se e desviou da armada o incêndio. De nautes o maduro aviso adota: Vais debelar gente áspera indomada; dos teus conduz ao Latium, a flor guerreira. D’antemão baixa a Dis (Haídês) e ao centro escuro; pelo alto Auernus, ó filho, vem falar-me: Não no ímpio Tartarus, entre os Manes tristes. Moro sim, entre os bons, no Elysium ameno. Muita rês negra fere, e a mim te guie casta Síbylla; aprenderás teus netos, e o dado império. Adeus, que úmida Nox vira e descai, e já do sevo oriente, respirando, os Etontes se me bafejam" – Birgílios, Aineiáda 5. 731.


“E ela (Síbylla) acrescenta: “Anquiséa e diva estirpe, descer a Dis (Haídês) é fácil; dia e noite seus cancelos o Tartarus franqueia: Tornar atrás e à luz, eis todo o ponto, eis todo o afã. Do reto Iouve (Zeús) amados, ou por virtude ardente ao céu subidos, poucos, filhos dos deuses, o alcançaram: Medeia um bosque, e sinuoso em torno enfuscado o Cocytus a espreguiçar-se, mas vezes duas se tranar a Styx e a lôbrega morada ver cobiças. Se tanto folgas do ímprobo trabalho, ouve e à risca o executa. Árvore opaca, dicado a Inferna Iuno (Persephónê), oculta um ramo n’haste e nas folhas áureo: em vale umbroso o encobre e fecha a denegrida selva. Sem que destronque o aurícolo rebento, no Orcus (Haídês) ninguém se interna,: é dom que exige e instruiu Proserpina (Persephónê) formosa. Um fora, brota o novo, e do luzente metal frondesce a vara. Em alto a mira , indaga, e achando respeitoso o apanhes; que, a te ser destinado, ele espontâneo logo te cederá; senão, com força, nem duro ferro poderás sacá-lo. Porém, desta consulta enquanto pendes, ai! Mal sabes que as naus te incesta agora de amigo o exânime o feral cadáver : No sepulcro o aposenta; em negras reses encete a expiação. É como aos vivos o ínvio reino sombrio e estígios lucos hás de avistar. Calou-se, e os lábios cerra.” – Birgílios, Aineiáda 6. 130.

TÁRTAROS COMPARADO AO HAÍDÊS


"— Oh menino, que nessa cama estás deitado! Mostra-me em seguida as vacas, ou logo nos separaremos de inconveniente maneira. Te pegarei e te lançarei ao Tártaros tenebroso, a escuridão sinistra e inelutável; e nem tua mãe nem teu pai poderão livrar-te e trazer-te à luz, senão que andarás errante debaixo da terra e imperarás sobre poucos homens.." – Homerikós Hýmnos IV à Hermés 255.

"Eu sempre choro com medo de Tártaros: Pois o recesso de Haídês é sombrio, e a estrada para baixo é penosa, e é certo que aquele que desce não volta de novo." – Anakreon, Fragmento 395.

"Tartessós [um rio próximo de Gadeira no sul da península ibérica] era conhecido por rumores como o ‘grande pai no oeste,’ onde, como o próprio poeta [Hómêros] disse, desaguava em Ôkeanós, ‘a brilhante luz do sol que arrastava a negra noite sobre a terra, a doadora de grãos.’ Agora, que noite é uma coisa de mau presságio e associado com Haídês, é óbvio; que também Haídês seja associado com Tártaros. Assim, pode-se razoavelmente supor que Hómêros, ao ouvir falar sobre Tartessós, chamou o grande pai das regiões inferiores de Tártaros depois de Tartessós, com uma ligeira alteração das letras; e que ele também acrescentou um elemento mítico, conservando assim a qualidade criativa da poesia." – Strábôn, Geographía 3. 2. 12.